Há decisões que mudam uma vida inteira. Para Oli, deixar o Luxemburgo e regressar a Portugal não foi uma escolha motivada por uma oportunidade profissional, mas pelo desejo de estar perto do pai, numa altura em que a doença começava a exigir cuidados.
"Como ele foi o melhor pai do mundo, eu não podia deixá-lo ir para um lar", recorda.
Foi assim que, há cerca de sete anos, trocou a estabilidade de uma vida no estrangeiro pela incerteza de um novo começo. O pai acabaria por falecer apenas seis meses depois, deixando uma ausência profunda, mas também uma ligação especial ao projeto que Oli começava a construir em Portugal.
Um regresso que se transformou num recomeço
No Luxemburgo, Oli trabalhava por conta de outrem. Em Portugal, viu-se perante uma realidade completamente diferente: gerir o seu próprio salão.
"Eu acho que aprendi mais aqui, porque no Luxemburgo trabalhava para um patrão. Aqui tive de me tornar patroa", admite.
A mudança trouxe responsabilidades para as quais nem sempre estava preparada. Pouco depois de assumir o negócio, descobriu que o salão atravessava dificuldades financeiras que desconhecia. Seguiram-se o agravamento da doença do pai, a sua perda e, mais tarde, a pandemia.
"O meu chão naquele momento caiu", confessa, ao recordar um período marcado por sucessivos desafios pessoais e profissionais.
Ainda assim, encontrou forças para continuar. "O que foi positivo é que ultrapassei isso tudo e agora estou aqui."
Hoje, olha para esse percurso como uma aprendizagem que dificilmente teria vivido se tivesse permanecido no Luxemburgo.
Um salão com uma visão diferente
Conquistar a confiança das clientes foi outro dos grandes desafios. Oli percebeu rapidamente que, em Portugal, muitas pessoas mantêm uma relação de longa duração com o seu cabeleireiro, tornando mais difícil a entrada de alguém novo no mercado.
A resposta passou por investir em formação, conhecer melhor as preferências das clientes e desenvolver uma identidade própria.
"Comecei a fazer cursos, a identificar-me um bocadinho com as pessoas e a perceber o que procuravam", explica.
Mas Oli não queria limitar-se às propostas mais tradicionais. A sua paixão está nos cortes curtos, modernos e menos convencionais, capazes de valorizar diferentes rostos e personalidades.
"Gosto muito de variar", afirma, defendendo que um corte bem pensado pode transformar por completo a imagem de uma pessoa.
Para a profissional, a idade não deve ser um obstáculo à mudança. Pelo contrário, acredita que experimentar um novo visual pode trazer frescura, praticidade e confiança.
A beleza começa na forma como nos sentimos
Mais do que seguir tendências, Oli procura compreender quem tem à sua frente. Observa o estilo, a personalidade e a abertura de cada cliente antes de sugerir uma transformação.
"Eu digo sempre a minha opinião sobre o que lhe fica bem. Depois, claro, não vou forçar", esclarece.
Essa atenção ao detalhe vai além do cabelo. No salão, tem o hábito de oferecer uma pequena maquilhagem às clientes, um gesto que considera parte da experiência.
"Adoro uma pessoa que tenha a pele iluminada, mesmo que tenha rugas, mas que tenha aquele glow", conta.
Para Oli, cuidar da imagem não significa esconder a idade, mas valorizar aquilo que cada pessoa tem de melhor. A escolha de um corte, de uma cor ou de pontos de luz deve ter em consideração o rosto, o tom de pele e, sobretudo, a vontade de quem procura os seus serviços.
Embora tenha preferências estéticas bem definidas, reconhece que cada pessoa deve sentir-se livre para escolher o visual com que mais se identifica.
Muito mais do que cabelo
Ao longo da conversa, há uma ideia que se repete: a beleza está profundamente ligada à autoestima.
Oli acredita que uma visita ao cabeleireiro pode representar muito mais do que uma mudança de visual. Pode ser um momento de cuidado pessoal, uma oportunidade para experimentar algo diferente ou simplesmente para voltar a gostar da imagem refletida no espelho.
"A nossa área é isso: fazer a pessoa feliz e mais bonita", resume.
Sete anos depois de ter deixado o Luxemburgo, Oli continua a reinventar-se. Entre perdas, dificuldades e conquistas, construiu um percurso marcado pela persistência e por uma forma muito própria de olhar para a beleza.
E se há algo que a sua história demonstra, é que nem todos os recomeços são planeados. Alguns nascem dos momentos mais difíceis e acabam por revelar caminhos que nunca imaginámos seguir.




