SAÚDE

FAMÍLIAS TRADICIONAIS

Ao longo dos anos o conceito de Família foi-se transformando e adaptando aos tempos que correm. O que hoje é Família, há cem anos não o era certamente. O conceito tradicional de Família já não existe, simplesmente não é possível mantê-lo nos tempos atuais. A adaptação, mais do que necessária, é uma exigência imperativa para a sobrevivência da instituição Família.
Na verdade, se pensarmos bem, nem tudo é bom no conceito de Família Tradicional:
– Os pais não exprimiam as suas emoções, não abraçavam os seus filhos, não manifestavam o seu amor por eles. Antigamente não era hábito ouvir um pai dizer a um filho eu amo-te, o que se ouvia era eu dou-te tudo. O pai de antigamente era o ganha-pão, hoje em dia é aquele que tem que amar e dessa forma também ensinar aos seus filhos o que é o amor.
– As mães de antigamente trabalhavam menos fora de casa, e à partida havia mais disponibilidade para as crianças. No entanto, hoje há mais tempo de qualidade, tempo que as mães dedicam exclusivamente aos seus filhos. Hoje em dia, a mãe entrega-se, partilha-se, mostra-se como mulher e ser humano aos seus filhos, dando-lhes assim o exemplo daquilo que é ser adulto.
– As carreiras mudaram, hoje não é um curso que nos define. Antigamente a aspiração seria tirar um curso e ter um emprego seguro. Não se pensava se seríamos felizes a exercer a profissão que escolhemos, ponderava-se apenas a segurança da carreira, o estatuto, o dinheiro.
Hoje isso já não é assim. Os miúdos de hoje querem ser felizes a trabalhar. Na verdade, hoje podem ser o que quiserem, podem sonhar sem limites, aplicar os seus talentos e concretizar o que entenderem. Hoje há toda uma série de profissões que nunca imaginamos que pudessem existir, cada um pode ser feliz se seguir a sua paixão e tiver determinação.
– Antigamente os papéis familiares eram fixos, havia coisas de homens e pais, e por outro lado havia coisas que eram de mulher e de mãe. Hoje não há essa divisão rígida de tarefas, os pais dão banho aos meninos, fazem tranças às filhas e leem histórias. A mãe hoje é também aquilo que quer e pode ser, muitas vezes o ganha-pão, a educadora, a que acompanha o filho aos jogos de futebol. Hoje em dia os papéis dissolveram-se porque se adaptaram melhor aos temperamentos dos elementos do casal ou porque às vezes só há um dos progenitores em casa.
– O casamento hoje tem mais liberdade, antigamente era mais rígido e tudo tinha que ser para sempre. Se havia casos em que as coisas corriam bem durante ‘toda a vida’, muitos outras pessoas ficaram agrilhoadas a uma vida sem amor apenas por decisão contratual, conveniência, medo…
Hoje há mais diálogo, mais entendimento, mais procura de harmonia e bem-estar. Cada elemento assume-se como um ser humano com necessidades e em desenvolvimento, e o bem-estar de cada um é que determina o bem-estar do casal.
– O amor hoje também é mais livre, há uns anos atrás estava mais circunscrito a questões de estrato social, situação financeira, género. Hoje sinto os jovens menos preocupados com o que os outros vão pensar e mais orientados para a verdade do sentimento. Gostam porque gostam sem pensar se é certo ou errado, se devem ou não gostar, sem pensar no que os outros vão pensar. Esta liberdade acaba por libertá-los de pressões e expectativas: o casamento, os filhos, não são uma imposição mas o Amor é certamente uma condição para qualquer relação.
Claro está que estas novas gerações que abraçam a vida de uma forma mais honesta, acabam por trazer grandes desafios para a nossa sociedade.
Eles são uma geração nova sem referenciais. São educados por pais que tiveram famílias tradicionais, mas que hoje têm que manter uma família bem diferente daquela que tiveram, num mundo que também por si é diferente. O trabalho que estes jovens nos exigem é profundo e intenso. É um trabalho de redefinição do que é certo ou errado, de questionar valores instituídos, um verdadeiro exercício de conexão com as nossas emoções e um grande despertar de consciência.
Hoje não aceitamos o “sempre foi assim”, se isso nos fizer infelizes. A infelicidade hoje não é aceitável, muito menos se algo puder ser feito para o evitar. Atualmente somos mais ativos na procura daquilo que nos faz felizes, já não há tanta submissão a um destino ou às convenções sociais.
No entanto, e apesar destes progressos, precisamos ainda de mais fé no futuro e de ter menos expectativas. Devemos pensar menos no que achamos que queremos e devemos, para passarmos a ser mais genuínos e acreditar que o melhor para nós surgirá dessa atitude mais autêntica perante a vida.
Eu pessoalmente sinto que há uma imensidão de coisas que são melhores nos dias de hoje. Há mais diálogo, mais abertura mental para conversar, mais entendimento e aceitação. Hoje estamos todos mais disponíveis para questionar, transformar e implementar soluções para melhorar.
Hoje somos mais capazes de sentir as nossas emoções sem a tentação de as camuflar. A tristeza, a raiva, a alegria, são partes de nós e cada vez que as sentimos há informação sobre nós que nos está a ser dada. Com esta capacidade para sentir e aceitar as nossas emoções tornamo-nos mais empáticos, pois conseguimos também sentir o outro e compreendê-lo.
A verdadeira empatia não é só dizer eu entendo-te. Isso não é empatia pois na maioria das vezes a frase é: eu entendo-te mas no teu lugar…
Empatia não é dizer ao outro o que faríamos se estivéssemos no lugar dele, isso é o nosso ego a falar. A verdadeira empatia é entender o outro, senti-lo e agir como ele queria que agíssemos. A verdadeira empatia é um exercício ser treinado para que haja mestria.
E num mundo onde há Empatia, haverá sempre Compaixão que é a base do Amor e de qualquer relacionamento saudável. Podemos assim dizer que conhecendo e aceitando melhor as nossas emoções nos tornarmos seres mais empáticos, dessa forma conseguiremos fazer Famílias muito felizes e isso sim devia ser uma tradição a instituir! 


Raquel Veloso 
Nós & a Família
Consultoria e Apoio à Saúde

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