SAÚDE

RUMO À NOSSA MELHOR VERSÃO

Recentemente, durante a conversa com uma grande amiga, esta perguntava-me: Diz-me o que é que eu posso fazer para mudar? Para me sentir melhor?
O contexto dela será certamente o mesmo de muitos de nós. Sente-se cansada de ser como é pois acredita que pode ser muito mais. Nestas fases, que todos a dada altura vivemos, o que estamos a Ser deixa de ser suficiente para nós, precisamos de Ser mais e melhores, por nós e para nós, não para os outros.
Nestas alturas, em que o desconforto e o desassossego se instalam nas nossas vidas, a transformação mais do que necessária torna-se imperativa. Não é mais possível permanecer da mesma forma, para sobreviver é preciso reinventarmo-nos numa melhor versão de nós mesmos.
Não sou grande apologista de conselhos ou dicas, acho sempre que o que pode servir a uns, não servirá certamente para outros. Somos seres únicos e tudo o que escolhemos deverá estar de acordo com o que somos. No entanto, há coisas com as quais quase todos concordamos, da mesma forma que há coisas que nos fazem bem a todos.
Estas dicas são apenas ideias que podemos por em prática, cada um à sua maneira, ao seu ritmo e de acordo com as suas vontades. Isso é o que dá cor à vida, o facto de sermos diferentes. Mas, o que que dá valor à vida é o facto de cada um de nós fazer o esforço contínuo e diário para se tornar um ser humano feliz.
Aqui ficam as minhas dicas que acabam por ser a resposta que dei à minha amiga:
1. Sentir o que somos
Mais do que saber quem somos ou perceber como somos, pois isto são ações da nossa mente, é importante sentir o que somos. Para que isso aconteça não temos que pensar ou fazer grandes investigações sobre nós. Para sentir o que somos temos apenas que parar, dedicar atenção às nossas emoções e nada pensar…
2. Parar de interpretar
A vida não precisa de ser interpretada, a vida necessita de ser vivida! Não podemos querer encontrar explicações para tudo sob pena de, com tanta explicação, se perderem as sensações e as emoções.
As interpretações são âncoras que nos prendem ao passado. São dadas com base em factos do passado, por isso nunca poderão ajudar a compreender o presente muito menos o futuro.
3. Parar de explicar
Vivemos num tempo em que tudo tem que ter uma explicação. Pior, vivemos num tempo em que temos que dar explicações para tudo. Há coisas que simplesmente são, sem qualquer explicação, há coisas que sentimos e queremos simplesmente porque sim. Precisamos de ter a liberdade de agir de forma leve e espontânea sem ter a mente impregnada com a necessidade de dar explicações, a nós e aos outros.
4. Fazer as perguntas certas
Confúcio dizia que o importante não era a resposta, mas sim a pergunta. Uma boa pergunta revela-nos muito sobre as questões que os preocupam. A forma como formulamos a pergunta e onde pomos a tónica, revela sempre onde reside a questão a ser resolvida. Saber fazer perguntas é uma arte pois na pergunta encontramos a resposta...
5. Perceber o peso que carregamos
Achamos que somos assim e pronto. A verdade é que somos assim porque nos fomos construindo dessa forma. A família, as tradições, as expectativas dos pais, as convicções limitadoras da família, os afetos que nela se vivenciam, os traumas, as alegrias, as amarguras… Tudo isto são aprendizagens que nos condicionam.
É importante perceber o que é nosso genuinamente e tudo aquilo que nos foi transmitido. Só aí podemos decidir em consciência se é algo que queiramos carregar ao longo das nossas vidas…
6. Ter consciência de como tratamos os outros e do que isso revela sobre nós
A forma como tratamos os outros revela muito sobre nós. Aquilo que pensamos que eles são, a forma como julgamos os seus atos, as atitudes que temos para com eles, revelam os valores que nos movem, as experiências que vivemos, o amor-próprio que desenvolvemos… Tal como diz a frase: Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo.
7. Perceber que desejos estão escondidos nos nossos medos
Acredito que cada medo esconde um desejo. Se fizermos um percurso através dos nossos medos acabaremos por chegar a algo que muito desejamos. Para perceber que medos temos e que desejos escondemos, o ideal é fazermo-nos perguntas de forma criativa. Podemos sempre perguntar-nos: Como seria a minha vida se eu não tivesse este medo? O que sentiria? Que experiências viveria? Talvez assim descubramos aquele desejo que nos tentamos esconder…
Estas são alguns passos que todos podemos dar rumo a uma melhor versão de nós mesmos. O importante é mesmo dar passos e começar a andar pois o caminho faz-se fazendo. 


Raquel Veloso 
Nós & a Família
Consultoria e Apoio à Saúde

QUANDO A PESSOA ERRADA SOMOS NÓS

Um destes dias vi uma publicação de alguém no Facebook que dizia: Às vezes somos bons demais com as pessoas erradas. Este tipo de publicação desagrada-me sempre pois sinto-o como uma vulnerável exposição da pessoa que o publica. Mas este caso para mim foi um pouco mais longe. A publicação era acompanhada de um comentário, a meu ver muito íntimo. A pessoa que o partilhou acrescentou as seguintes palavras: Tantas vezes e o pior é que não aprendemos. Confesso que já nem liguei ao emogi triste com que terminou a frase.
Uma das coisas que mais me desagrada quando navego pelo Facebook é ver as pessoas exporem-se e a desvalorizarem-se de forma explícita. Na verdade, a publicação que anteriormente referi é precisamente isso. O desconforto que senti quando a li impeliu-me de imediato a escrever. Pareceu-me importante refletir sobre o que estas duas frases poderão estar a querer dizer sobre quem as publica.
Primeiro, seria importante perceber o que é ser bom e o que é ser errado.
Será que uma pessoa que se engana sucessivamente relativamente aos outros estará a ser boa? Será que tanto erro fará do seu comportamento algo certo? Será que o universo não lhe coloca no caminho estas pessoas que apelida de erradas para que possa fazer alguma aprendizagem, e assim aprender a acertar na escolha de melhores companhias?
Se uma criança demora anos para aprender a fazer contas de somar ou a andar de bicicleta considera-se que poderá ter algum tipo de problema de aprendizagem. No entanto, se na idade adulta não conseguimos aprender a escolher as pessoas que queremos que nos acompanhem e passamos a vida a fazer escolhas “erradas”, dizemos que somos excessivamente bons. Nem sequer consideramos a hipótese de podermos estar a ser maus alunos da Vida e esta, com a sua imensa sabedoria, nos poder estar a ajudar. Como? Colocando essas pessoas no nosso caminho para que tenhamos consciência do motivo pelo qual fazemos as escolhas erradas e depois para que aprendamos a fazer escolhas certas. E enquanto não aprendermos a lição, as “pessoas erradas” continuarão a aparecer…
Segundo, temos sempre a arrogância de dizer que nós somos bons e os outros não.
Este pensamento carregado de críticas, julgamentos e juízos de valor poderá por si só explicar por que razão essas pessoas se “enganam” tanto relativamente às escolhas que fazem.
Nunca com pensamentos ou palavras críticas e julgadoras nos podemos conectar com o outro. E sem conexão não há verdadeira interação. Quando vivemos a vida desta forma nunca estamos no momento presente e este é o único momento em que conseguimos ver com alguma clareza. Se a nossa forma de estar na vida é criticar e julgar, quando estamos com o outro nunca o poderemos ver nem sentir.
Quando só vemos coisas más no outro, isto acontece porque de alguma forma este defraudou as nossas expectativas. Quando nos relacionamos com alguém acreditando nas histórias que construímos dele, obviamente que ele nunca será como imaginamos e queríamos que fosse. Mas tarde ou mais cedo perceberemos isso… normalmente da pior forma.
Nessa altura, quando finalmente nos apercebemos que ele não satisfaz as nossas expectativas, frustramos. No nosso íntimo conhecemos a verdade mas, por ego, não a queremos aceitar. Assim, elevamo-nos à condição de mártir e autodenominamo-nos como “Boas pessoas”. Como a culpa não desaparece só com pensamentos de mártir temos que fazer algo para nos sentirmos melhor. Como continuamos sem assumir a responsabilidade pelas escolhas que fizemos, sem que nos apercebamos, as palavras que publicamos são como uma confissão de culpa.
As publicações como esta surgem então na esperança de encontrar reforço positivo dos “amigos” virtuais para nos alimentar o ego. E dessa forma comunicamos ao mundo que não sabemos fazer escolhas e não estamos dispostos a aprender, atraindo assim mais pessoas “erradas” para a nossa vida…
Terceiro, estas palavras revelam um auto-boicote e uma fragilidade emocional imensa.
Esta pessoa não está à espera de alguém que a ame. Esta pessoa que está a mendigar amor está a dizer: Tenham pena de mim porque eu até estou disposta a acolher “pessoas erradas”.
Esta falta de amor-próprio nunca é atraente ou cativante, bem pelo contrário. Ninguém equilibrado e com uma boa dose de amor-próprio diz: Uau! Aqui está uma pessoa que passa a vida a escolher as pessoas erradas e nunca aprende. Fascinante, quero conhecê-la! Só aqueles que já se consideram “a pessoa errada” poderão manifestar esse interesse, pois saberão que serão os escolhidos.
Não perceber como as palavras que proferimos nos condicionam, é desperdiçar o enorme poder que a linguagem tem nas nossas vidas.
Cada pensamento que temos, cada palavra que dizemos, revela algo sobre nós. Através deles temos uma excelente oportunidade para nos conhecermos e perceber o que o nosso Eu mais íntimo revela sobre nós.
Esse trabalho de Autoconhecimento é fundamental para sabermos quem e como somos. É preciso que nos conheçamos para que possamos ter consciência do nosso papel neste mundo e do contributo que estamos cá para dar. Assim, alcançando Autoconsciência estaremos no caminho do tão desejado Autocontrolo. Isso sim permitir-nos-á fazer as melhores escolhas para nós!
De nada adianta ficamos sentados no nosso lugar, com o telemóvel na mão, considerando o mundo à nossa volta um lugar hostil e esperando que os outros reconheçam o nosso valor. A perceção que temos de nós e do que valor temos é precisamente aquela que os outros vão reconhecer. Eles captam aquilo que nós sentimos e pensamos sobre nós próprios, não há como se enganarem.
E por último, seria importante percebermos que não estamos cá para ajudar os outros, estamos cá para nos ajudarmos a nós próprios a cumprir o objetivo da nossa existência. Ser Feliz é libertar-se da necessidade do outro para reconhecer o nosso valor. Quando nós não reconhecemos o nosso próprio valor, somos nós a pessoa errada… 


Raquel Veloso 
Nós & a Família
Consultoria e Apoio à Saúde

FAMÍLIAS TRADICIONAIS

Ao longo dos anos o conceito de Família foi-se transformando e adaptando aos tempos que correm. O que hoje é Família, há cem anos não o era certamente. O conceito tradicional de Família já não existe, simplesmente não é possível mantê-lo nos tempos atuais. A adaptação, mais do que necessária, é uma exigência imperativa para a sobrevivência da instituição Família.
Na verdade, se pensarmos bem, nem tudo é bom no conceito de Família Tradicional:
– Os pais não exprimiam as suas emoções, não abraçavam os seus filhos, não manifestavam o seu amor por eles. Antigamente não era hábito ouvir um pai dizer a um filho eu amo-te, o que se ouvia era eu dou-te tudo. O pai de antigamente era o ganha-pão, hoje em dia é aquele que tem que amar e dessa forma também ensinar aos seus filhos o que é o amor.
– As mães de antigamente trabalhavam menos fora de casa, e à partida havia mais disponibilidade para as crianças. No entanto, hoje há mais tempo de qualidade, tempo que as mães dedicam exclusivamente aos seus filhos. Hoje em dia, a mãe entrega-se, partilha-se, mostra-se como mulher e ser humano aos seus filhos, dando-lhes assim o exemplo daquilo que é ser adulto.
– As carreiras mudaram, hoje não é um curso que nos define. Antigamente a aspiração seria tirar um curso e ter um emprego seguro. Não se pensava se seríamos felizes a exercer a profissão que escolhemos, ponderava-se apenas a segurança da carreira, o estatuto, o dinheiro.
Hoje isso já não é assim. Os miúdos de hoje querem ser felizes a trabalhar. Na verdade, hoje podem ser o que quiserem, podem sonhar sem limites, aplicar os seus talentos e concretizar o que entenderem. Hoje há toda uma série de profissões que nunca imaginamos que pudessem existir, cada um pode ser feliz se seguir a sua paixão e tiver determinação.
– Antigamente os papéis familiares eram fixos, havia coisas de homens e pais, e por outro lado havia coisas que eram de mulher e de mãe. Hoje não há essa divisão rígida de tarefas, os pais dão banho aos meninos, fazem tranças às filhas e leem histórias. A mãe hoje é também aquilo que quer e pode ser, muitas vezes o ganha-pão, a educadora, a que acompanha o filho aos jogos de futebol. Hoje em dia os papéis dissolveram-se porque se adaptaram melhor aos temperamentos dos elementos do casal ou porque às vezes só há um dos progenitores em casa.
– O casamento hoje tem mais liberdade, antigamente era mais rígido e tudo tinha que ser para sempre. Se havia casos em que as coisas corriam bem durante ‘toda a vida’, muitos outras pessoas ficaram agrilhoadas a uma vida sem amor apenas por decisão contratual, conveniência, medo…
Hoje há mais diálogo, mais entendimento, mais procura de harmonia e bem-estar. Cada elemento assume-se como um ser humano com necessidades e em desenvolvimento, e o bem-estar de cada um é que determina o bem-estar do casal.
– O amor hoje também é mais livre, há uns anos atrás estava mais circunscrito a questões de estrato social, situação financeira, género. Hoje sinto os jovens menos preocupados com o que os outros vão pensar e mais orientados para a verdade do sentimento. Gostam porque gostam sem pensar se é certo ou errado, se devem ou não gostar, sem pensar no que os outros vão pensar. Esta liberdade acaba por libertá-los de pressões e expectativas: o casamento, os filhos, não são uma imposição mas o Amor é certamente uma condição para qualquer relação.
Claro está que estas novas gerações que abraçam a vida de uma forma mais honesta, acabam por trazer grandes desafios para a nossa sociedade.
Eles são uma geração nova sem referenciais. São educados por pais que tiveram famílias tradicionais, mas que hoje têm que manter uma família bem diferente daquela que tiveram, num mundo que também por si é diferente. O trabalho que estes jovens nos exigem é profundo e intenso. É um trabalho de redefinição do que é certo ou errado, de questionar valores instituídos, um verdadeiro exercício de conexão com as nossas emoções e um grande despertar de consciência.
Hoje não aceitamos o “sempre foi assim”, se isso nos fizer infelizes. A infelicidade hoje não é aceitável, muito menos se algo puder ser feito para o evitar. Atualmente somos mais ativos na procura daquilo que nos faz felizes, já não há tanta submissão a um destino ou às convenções sociais.
No entanto, e apesar destes progressos, precisamos ainda de mais fé no futuro e de ter menos expectativas. Devemos pensar menos no que achamos que queremos e devemos, para passarmos a ser mais genuínos e acreditar que o melhor para nós surgirá dessa atitude mais autêntica perante a vida.
Eu pessoalmente sinto que há uma imensidão de coisas que são melhores nos dias de hoje. Há mais diálogo, mais abertura mental para conversar, mais entendimento e aceitação. Hoje estamos todos mais disponíveis para questionar, transformar e implementar soluções para melhorar.
Hoje somos mais capazes de sentir as nossas emoções sem a tentação de as camuflar. A tristeza, a raiva, a alegria, são partes de nós e cada vez que as sentimos há informação sobre nós que nos está a ser dada. Com esta capacidade para sentir e aceitar as nossas emoções tornamo-nos mais empáticos, pois conseguimos também sentir o outro e compreendê-lo.
A verdadeira empatia não é só dizer eu entendo-te. Isso não é empatia pois na maioria das vezes a frase é: eu entendo-te mas no teu lugar…
Empatia não é dizer ao outro o que faríamos se estivéssemos no lugar dele, isso é o nosso ego a falar. A verdadeira empatia é entender o outro, senti-lo e agir como ele queria que agíssemos. A verdadeira empatia é um exercício ser treinado para que haja mestria.
E num mundo onde há Empatia, haverá sempre Compaixão que é a base do Amor e de qualquer relacionamento saudável. Podemos assim dizer que conhecendo e aceitando melhor as nossas emoções nos tornarmos seres mais empáticos, dessa forma conseguiremos fazer Famílias muito felizes e isso sim devia ser uma tradição a instituir! 


Raquel Veloso 
Nós & a Família
Consultoria e Apoio à Saúde

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